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A MULHER AFRICANA – UMA VERDADEIRA HEROÍNA TODOS OS DIAS

Escrito por em Março 8, 2018

No ano passado tive felizmente a oportunidade de fazer várias viagens, de cariz profissional, ao continente africano. Pude ir, nomeadamente, a países de língua oficial portuguesa como Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Moçambique.

Por vezes é preciso sairmos de nós, do nosso reduto, para valorizarmos o que temos. Foi exatamente isto que aconteceu comigo. Adorei conhecer qualquer um dos países que mencionei acima e os respetivos povos.

De entre muitas impressões que trouxe da realidade africana avultam duas, para além da (infelizmente) habitual pobreza.

A primeira é a sensação de fragilidade que se experimenta, a noção de que ter direitos (da mais diversa ordem – políticos, sociais, económicos, etc…) é uma ficção que só se torna realidade quando a globalidade de uma sociedade acredita que os direitos existem mesmo. A Lei vale pouco ou, dito de outra forma, há muitas vezes uma lei que se sobrepõe à oficial – a totalmente arbitrária lei do mais forte. Num dos países deste meu périplo (não vou dizer qual) vivi episódios em que a minha segurança (principalmente, a jurídica) foi posta em causa por aqueles que têm a obrigação de ser os primeiros defensores da Lei e da Ordem – os agentes policiais. Nesses países, direitos como o direito à saúde (por exemplo, hospitais públicos onde só é atendido quem corromper o médico ou o enfermeiro) e à educação são conceitos muito relativos e que vão pouco além da letra da lei.

Apercebi-me, assim, de que viver em Portugal (ou em qualquer outro país do mundo dito ocidental) é viver num pequeno paraíso de paz, segurança e tranquilidade, no qual desfrutamos de direitos inalienáveis e que nos são garantidos porque a larguíssima maioria da sociedade acredita nisso e, como tal, respeita e luta por eles usando para tal leis e mecanismos que asseguram a execução destas.

A segunda (e mais forte) impressão foi a descoberta da minha nova heroína, a personagem digna e merecedora de toda a minha admiração – a Mulher Africana. Esta Mulher é, ao mesmo tempo, o pilar e a viga, o cimento e o tijolo, das sociedades africanas. É ela o elemento agregador da família, é ela quem faz acontecer as coisas, quem está sempre presente, quem nunca desiste (nem concebe tal ideia), quem segura e ampara todos os outros quando caem porque ela nunca cai, nunca treme, nunca hesita na determinação em ser tudo o que a família precisa que ela seja. É rochedo inabalável mas é também a locomotiva imparável. É sempre ela a primeira lutadora mas também a primeira apaziguadora; é sempre ela a primeira a sacrificar-se e a acordar em casa mas é sempre a última a deitar-se e a pensar um pouco nela própria.

Viver em África, com as condições de vida que conhecemos e que ofendem a dignidade humana, não é fácil, não é para todos. É só para aqueles que sabem superar-se todos os dias, para os determinados que não vacilam perante adversidades, para os que têm as suas escolhas e prioridades perfeitamente definidas. Vi isto tudo na Mulher Africana, a minha heroína. A vida em África seria infinitamente mais difícil sem ela e seria muito melhor se ele fosse devidamente valorizada e se os seus direitos fossem minimamente respeitados o que, como já acima disse, não sinto que esteja de alguma forma garantido.

Já devia há uns meses estas palavras à Mulher Africana nestas minhas crónicas, tal foi a força da impressão que trouxe de África. Quando percebi que esta minha crónica coincidia com o Dia Internacional da Mulher, não hesitei no tema porque sei que em todas as Mulheres que amam há sempre algo de Mulher Africana.

E é assim que, na figura da Mulher Africana, homenageio todas as Mulheres, não só hoje, como todos os dias.

Até para a semana. Desfrutem de Odivelas, também no feminino!

Fernando Sousa Silva
Sociólogo