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Dos perigos da “excessiva” Intervenção Humana

Escrito por em Maio 10, 2022

OPINIÃO

Por Augusto Costa

Muitas vezes esquecemos que o método científico tem menos de quatro séculos e a “verdadeira ciência” pouco mais de dois.

Quando achamos que – com os conhecimentos actuais – temos solução para uma série de problemas complexos, podemos estar simplesmente enganados.

Por “problemas complexos” refiro-me aqueles que derivam das denominadas ciências da complexidade, com muitas variáveis e em que todas se influenciam mutuamente. Exemplos: Meteorologia/Clima, Economia, Política, Sociologia ou Psicologia (se as podermos considerar ciências), etc.

Muitas vezes esquecemos que o método científico tem menos de quatro séculos e a “verdadeira ciência” pouco mais de dois.

Estamos nos primeiros passos de uma criança que caminha e a criança é o ser humano racional!…

É óbvio que o sucesso da ciência (especialmente das ciências físico-naturais) tem sido gigantesco na descoberta da utilização das leis da Natureza em nosso favor. Já não podemos dizer tanto quando nos propomos resolver um problema complexo como seja o problema climático ou uma pandemia ou simplesmente a melhor forma de nos organizarmos política e socialmente. Neste último campo as tentativas racionais têm sido um verdadeiro desastre responsáveis por milhões de mortos e muita miséria!

Uma questão filosófica fundamental é a da acção!

Sendo a “resistência passiva” uma forma de acção, como Ghandi, entre outros nos demostraram, devemos ou não agir activamente no mundo?

Em que circunstâncias? Com que meios?

Devemos tentar corrigir aquilo que achamos errado? É lícito? É aconselhável?

Qualquer ser vivo está condenado à acção. Como seres humanos, antes de pensarmos já agimos, enquanto crianças.

E no princípio era a Acção e não o Verbo. O Verbo veio depois… e com ele…. o perigo da “acção racional”.

Os animais também agem, mas não parece daí advir grande mal ao mundo. Com o Verbo, o Pensamento e a Razão é que chegaram todos os perigos.

Achamos que sabemos – e agimos em conformidade!

Só queria aqui chamar a atenção para que isso pode ser catastrófico!

Senão vejamos três exemplos que nos devem fazer pensar e que demonstram o precário equilíbrio entre nós e o mundo que nos rodeia.

Começo com um exemplo de uma época antes da ciência, mas já com a razão desenvolvida – a razão teológica…

  1. A PESTE NEGRA (1347-1353)

Consta que o Papa Gregório IX – cujo nome está ligado à instituição da Inquisição no séc. XIII – decretou que os gatos (especialmente os pretos) eram animais diabólicos e incentivou a sua matança e destruição. Nos meados do séc. (1348) uma doença terrível abateu-se sobre o mundo (a Peste Negra). O seu grau de transmissão na Europa foi muito grande. Muito mais que em qualquer outra parte do mundo. 1/3 da População europeia pereceu da doença. Porquê? Porque a peste era transmitida por uma bactéria que residia nos piolhos dos ratos, que proliferaram muito devido ao escasso número de gatos para os caçar. O desequilíbrio foi quebrado! A Natureza vingou-se!

  1. A GRANDE FOME DE MAO (1958-1962)

Aqui já estamos na época da ciência e da racionalidade humana aplicada à resolução de problemas. Mas aconteceu na China, exactamente aquilo que se queria evitar. Fome e falta de cereais. As estimativas vão de 25 a 55 milhões de mortos por fome – a maioria crianças abaixo dos 15 anos devido a opções políticas dos responsáveis chineses de então.  A questão parecia simples. O grande timoneiro (Mao Zedong) e os responsáveis políticos chineses constataram que cerca de 10 a 20% por cento das colheitas de cereais (principalmente de arroz) eram comidas pelos pássaros. Portanto, foi aconselhada a sua perseguição e erradicação para aumentar as colheitas. Tudo parecia lógico e racional!  Todo o bom chinês matava pássaros (como na Idade Média matavam os gatos) para aumentar a safra da colheita de cereais – e do arroz em particular. O número de pássaros desceu acentuadamente. Contudo, o resultado foi o inverso do esperado. As colheitas dos finais dos anos 50 e inícios dos anos 60 foram desastrosas devido à proliferação de pragas de insetos que atacavam as sementeiras baixando enormemente os cereais colhidos. O problema pôs-se não depois da colheita porque já não havia pássaros para comer os cereais, mas antes – nas pragas que não deixavam crescer as plantas. E porquê este aumento de pragas de insectos? Porque os seus predadores naturais – os pássaros – foram quase exterminados. O balanço natural foi outra vez posto em causa. Cientes do erro, em anos posteriores a China importou pardais de todos os países do mundo para repor o equilíbrio.

  1. A COVID-19

Mais recentemente tivemos a luta contra a COVID-19 que implicou – por aconselhamento científico – o isolamento e o confinamento de populações inteiras – novos e velhos. Pois, numa época em que tudo parece começar a normalizar-se, começam a aparecer estranhas doenças entre as crianças e que muitos especialistas pensam serem devidas ao facto de estas não terem estado expostas aos germens patológicos normais que é suposta estarem submetidas durante o seu desenvolvimento. É que foram dois anos em que grande parte da população dos países mais ricos ficou praticamente isolada em bolhas familiares e sem contactos com os demais. Se para os adultos é suportável para as crianças de tenra idade pode ter sido muito perigoso pois isolou-as do que se sabe ser o “são-contacto” com os agentes patogénicos. E a hepatite agora detectada afecta especialmente as crianças até aos 3 anos de idade!

A Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou no domingo (24/4) pelo menos 169 casos de hepatite aguda de origem desconhecida.

A maioria das notificações está na Europa e envolve bebês, crianças e adolescentes entre um mês a 16 anos. Do total, 17 (aproximadamente 10%) necessitaram de transplante de fígado e até o momento uma morte foi registrada. Segundo a OMS, foram notificados 114 casos no Reino Unido, 13 na Espanha, 12 em Israel, nove nos EUA, seis na Dinamarca, pelo menos cinco na Irlanda, quatro na Holanda, dois na Noruega, dois na França, um na Romênia e um na Bélgica. (BBC News)

Será isto uma consequência de confinamento excessivo?

Tive um professor de História que dizia:

“OS HOMENS FAZEM A HISTÓRIA, MAS NÃO SABEM A HISTÓRIA QUE FAZEM!”

Quanto mais conheço o mundo e a sua história mais me convenço que o excesso de confiança e fé na bondade e racionalidade das nossas acções é que nos tornam o animal mais perigoso que existiu na face da Terra. Os resultados desse excesso de confiança e de actividade têm os resultados que se conhecem-na política e até na própria ciência!


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