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OPINIÃO/CRUZEIRO: O ORGULHO

Escrito por em Julho 20, 2018

O ORGULHO

Quando eu era pequenino, fui ensinado a evitar que o orgulho se apoderasse da minha “angelical alma” (sim, nesse tempo eu ainda embarcava nestas deliciosas definições de carácter) porque era um sentimento indiciador de ridícula soberba sobre o meu semelhante que, de uma ou outra forma, melhor ou pior, ia lutando pela vida a que tinha tanto direito como eu.

Das muitas lições que fui retendo ao longo desta caminhada vivencial em que me lançaram, esta não foi, seguramente, daquelas que fui naturalmente rejeitando à medida que ia crescendo. Abandonei conscientemente as histórias da carochinha que me venderam durante a educação católica que recebi, deixei de ter medo dos infernos com que me ameaçavam por ter roubado um caramelo na mercearia da esquina, e não fiquei à espera que os deuses me livrassem das tentações de um qualquer demónio (comunista, pois claro!) que me saltasse ao caminho, indicando-me alternativas para fugir da quase miséria (material e cívica) em que me encontrava.

A partir dos meus treze, catorze anos, comecei a pensar pela minha própria cabeça e, progressiva e conscientemente, fui-me libertando das amarras que me aprisionavam ao velho e ultrapassado conceito do deus omnipresente, omnipotente, infinitamente justo e castigador implacável dos erros que eventualmente cometesse.

Não sei bem porquê, julgo nunca ter sido demasiado orgulhoso nem excessivamente vaidoso. Até, por vezes, fui amigavelmente repreendido por não valorizar convenientemente algumas coisas de bom que terei feito em dados momentos da vida.

Talvez seja por isso que fico incomodado, e muitas vezes enjoado (quando não enojado), com as diárias manifestações para que sou convocado, apelando (ou exigindo?) ao meu orgulho patriótico pelas façanhas, de uma maneira geral desportivas (mas não só), de uma plêiade de novos heróis supremos, que a pátria, basbaque, contempla.

Foi nesse sentido que me insinuaram que deveria orgulhar-me pela nomeação do dr. Durão Barroso (um português, caramba!) para a presidência da União Europeia. Claro que não me orgulhei, antes pelo contrário, e a vida veio a dar-me razão.

Depois, outro português, António Guterres, depois de ter desempenhado, com a eficácia que se vê a olho nú, o cargo de Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, foi eleito para Secretário-geral das Nações Unidas.

Como portuguesinho de gema que sou, lá fui intimado a orgulhar-me por tão grande honra concedida ao meu país. E continuo à espera que o motivo para tão grande orgulho se venha a manifestar um dia, quando vislumbrar uma réstia de firmeza desta organização no combate aos poderosos senhores da guerra e do terror que dominam este mundo.

Para o efeito, já comprei um sofá da última geração e vou esperar sentado, porque as forças já não são muitas.

Mas, apesar de tudo, os verdadeiros heróis credores da maior e mais genuína idolatria do bom povo português, situam-se no campo “desportivo”, designadamente na abjecta indústria em que se transformou o que começou por ser um simples jogo da bola, baptizado depois de futebol, para ser hoje a maior e mais inqualificável máquina de alienação colectiva até agora conhecida.

E é neste contexto que, à cabeça da heroicidade nacional, aparece um rapaz que, sendo verdadeiramente exímio na arte de pontapear e ou cabecear uma bola, foi erigido pela bajulação, nacional e internacional, a um “lendário deus” da era moderna, (pago ainda por cima a muitos milhões por ano), divindade esta que só por inveja alguém ousará contestar.

Julgo ser chegada a altura de confessar que gosto de ver um bom jogo de futebol. Que tenho a minha simpatia clubística (esta é uma maleita da qual, como acontece com qualquer outro vício, dificilmente nos conseguimos livrar).

Contudo, sinto-me violentado no meu simplório desejo de justiça igualitária quando vejo tantos e tantos milhões aplicados numa indústria que alimenta estes deuses com pés de barro (à semelhança de todos os outros), quando se morre de fome um pouco por quase todo o mundo porque, na versão oficial, “o dinheiro não chega para tudo”.

Claro que estes deuses dos futebóis são os menos culpados nesta situação. É o sistema, caros amigos. É o capitalismo, com as suas leis do mercado, na sua mais hedionda arte de manipulação das gentes mais humildes e, por isso, mais vulneráveis.

Por mim, antes que as múltiplas doses de bacoco patrioteirismo se transformem numa overdose sem regresso, cá me vou entretendo a procurar, no dia-a-dia, os raríssimos canais da nossa estimada TV que não emitem, 24 horas sobre 24 horas, a histórica novela da mudança de patrão, corajosa, apaixonante, inteligente e sobretudo muito bem paga, do novo herói da nossa história pátria.

Com toda a inveja do mundo, pois está claro.

Um grande e orgulhoso fim-de-semana para todos.

Adventino Amaro

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