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SOBRE A “VIVÊNCIA EM AUSÊNCIA DE DESEJO” (3ª parte)

Written by on Maio 26, 2020

 

OPINIÃO

Sobre a “vivência em ausência de desejo”, vista como um ideal das filosofias budista e espiritualista

Por João Malveiro

Terceira parte: a “solução” graciosa que se encontra “para além do bem e do mal”

Mas a impossibilidade de a “salvação” ocorrer através de um exercício por nós desenvolvido e de uma deliberação da nossa vontade não significa que estejamos fatalmente condenados ao sofrimento e à “perdição” (ausência de “salvação”). Pode dar-se o caso de a “salvação” (cristã) ou o “despertar” (budista) surgir-nos de uma forma espontânea e inopinada, sem que tenhamos consciência da razão de ser desse acontecimento. Ou seja, pode dar-se o caso desse acontecimento ser da ordem da graça divina.

A ser assim, significará isto que o “divino” atribuirá a sua graça de uma forma arbitrária, independentemente dos pensamentos, sentimentos e acções daquele a quem é concedida essa graça? – Como evolucionista (em termos espirituais), não partilho da ideia de que a coisa se processe desta maneira. Tenho de admitir que aquelas funções psicológicas e as acções delas decorrentes contribuirão, de algum modo, para a ocorrência da graça divina. Mas, para ser coerente com as dificuldades paradoxais atrás expostas, tenho que pressupor que esse contributo não poderá ser medido nem avaliado pelos meus (nossos) instrumentos cognitivos. Daqui resulta que, na prática, não me posso servir de nenhuma avaliação, por mim (por nós) feita sobre os meus (os nossos) pensamentos, sentimentos ou actos, para decidir/concluir sobre a razão de ser do referido acontecimento gracioso – e é por isso que o entendo como gracioso!…

Considero esta perspectiva filosófica do espiritualismo muito importante porque ela elimina, à partida, qualquer pretensão de se estabelecer uma “rota do bem” (do bem resultante de uma idealização, do pensamento projectivo, envolvendo a dimensão temporal), ou seja, ela contraria qualquer lógica que pretenda justificar a adesão e o recurso a um caminho espiritual orientado por uma determinada moral ou por um determinado procedimento, tendo em vista a persecução da finalidade do “despertar” ou da “salvação”!… Isto não invalida, obviamente, a razoabilidade e a pertinência de todos nos devermos reger, em sociedade, por determinados princípios de ordem moral. Mas invalida que ousemos estabelecer um qualquer elo entre a assunção destes princípios e a ocorrência do acontecimento que, atrás, considerei como gracioso. Quer dizer, invalida, por exemplo, que se interprete a expressão do ideal budista, “vivência em ausência de desejo/projecto”, como uma recomendação prática de contenção/condenação dos desejos ou de abolição dos projectos (pois todas as recomendações transportam consigo, implicitamente, projectos).

Nesta linha interpretativa, não fazem nenhum sentido as recomendações de: “elimina o desejo/projecto” ou “elimina a mente/pensamento”, alegadamente atribuíveis à filosofia budista e, em geral, à filosofia oriental!…

Em conformidade com o exposto, a “vivência em ausência de projecto” estará “para além do bem e do mal” (porque não resulta da execução de nenhuma idealização projectiva), assim como estará para além de toda e qualquer questão relacionada com o “pecado original” – porque aquela será uma vivência que resultará da ingestão do fruto da árvore da vida, e não já do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

De referir, ainda, que o ideal budista (e, do meu ponto de vista, também o ideal espiritualista gnóstico) referenciado na expressão “vivência em ausência de desejo/projecto” implica, neste entendimento, uma atitude de “aceitação” (sem escolhas, porque essa “aceitação” é uma característica própria dessa vivência) dos acontecimentos que nos surgem de uma forma inevitável (destino) e implica, ainda, uma atitude de “aceitação” de si-próprio – das disposições interiores que condicionam a formação da nossa personalidade/carácter.

Como curiosidade, transcrevo seguidamente duas citações de um autor que não alimenta qualquer ideia a respeito da existência de uma “ordem divina espiritual” (substitui-a pela ideia de uma “ordem da natureza”, em conjugação com a ideia de um tempo circular – a ideia filosófica do “eterno retorno”), mas isso não o impede de apreciar o ideal budista/espiritualista de uma “vivência em ausência de desejos/projectos”!… De realçar, também, o apreço manifestado pelo mesmo autor por uma atitude psicológica de aceitação dos acontecimentos da vida que nos surgem como inevitáveis – o amor-fati [amor ao destino], atitude, esta, enaltecida por alguns filósofos gregos da antiguidade clássica.

«Quero cada vez mais aprender a ver como é belo aquilo que é necessário nas coisas.

Amor-fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz sim» (Nietzsche, Gaia Ciência, pág. 276)

«Não tenho memória de que me haja alguma hora aplicado com esforço fosse ao que fosse, não se encontra na minha vida sinal de luta: sou o contrário de uma natureza obstinada. “Querer” uma coisa, “esforçar-se” por uma coisa, ter diante dos olhos um “fim”, um “propósito”, são estados que por natureza não conheço. Neste momento lanço um olhar sobre o meu porvir – como quem contempla um mar em calmaria: desejo algum nele se encrespa. Não quero de forma alguma que qualquer coisa, seja o que for, seja diferente do que é; eu próprio não quero ser diferente do que sou… E assim sempre vivi. Não tenho desejos. Sou alguém que aos quarenta e quatro anos pode dizer que nunca buscou “honras”, “mulheres” ou “dinheiro” – o que não significa que estas coisas me tenham sempre faltado […]. A minha fórmula de grandeza do homem é “amor-fati”: não pretender ter nada de diverso do que se tem, nada antes, nada depois, nada por toda a eternidade. A necessidade não existe apenas para suportar-se – todo o idealismo é mentira em face da necessidade – mas para que a amemos…» (Fredrich Nietzsche, “Ecce-Homo”, pág. 68,69 e 72)

NOTA EXPLICATIVA A RESPEITO DO CONCEITO: destino.

A propósito da atitude de “aceitação” que, presumivelmente, acompanha a “vivência em ausência de “desejo/projecto”, referi-me ao conceito de destino.

Entende-se, aqui, por destino, apenas, o que sabemos que é certo e seguro desse destino: os acontecimentos ocorridos no passado e dos quais não tivemos a mínima hipótese de com eles interferir e de os alterar, caso o desejássemos e tivéssemos podido fazê-lo (de acordo com o nosso livre arbítrio); ou os acontecimentos que, tendo nós tido neles alguma influência, também já fazem parte do passado!…

Admite-se, também, como destino, acontecimentos futuros pré-determinados (mas que são, por nós, obviamente desconhecidos), no entanto, essa predeterminação nunca é vista como absoluta – encontrando-se, sempre, por isso, sujeita a uma possível alteração (correspondendo esta concepção, em consequência, a um destino dinâmico e não um destino estático).