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O Pinheiro do Caminho

Escrito por em Maio 5, 2022

Eugénio Rietsch Monteiro

O Pinheiro do Caminho

Por Eugénio Fernando Rietsch Monteiro

Era uma bela árvore *

Todos o conheciam como “ o pinheiro do caminho” pois aquele frondoso pinheiro manso estava situado junto ao caminho que qualquer pessoa, vinda da serra, teria de utilizar para se dirigir à nossa aldeia.

Estava estrategicamente colocado como se a natureza tivesse caprichado ou se o seu anónimo e antigo semeador tivesse tido a premonição da importância do caminho e do local da árvore.

Sitiado ao lado duma curva do caminho, bem no alto da encosta, quantas vezes, em verões ardentes, deu abrigo aos viandantes que demandavam a aldeia e à sua sombra fresca repousavam alguns minutos após a ingreme subida; quantas vezes, pares de namorados abrigados, ou escondidos, sob a sua ramagem fizeram juras de amor em noites enluaradas; quantas vezes ainda o seu tronco largo serviu de apoio em noites de tempestade em que o vento uivante da portela parecia tudo querer levar consigo.

Teria cem anos? Duzentos?

Ninguém sabia!

Nem os cientistas conheciam aquele gigante, ou, se o conheciam não lhe reconheciam utilidade. O certo é que os mais velhos se lembravam de que já era enorme quando eles ainda eram pequeninos.

Que histórias não teria ele para nos contar…!

Abrigo sólido e natural para as inúmeras aves que durante a noite pululavam por entre a sua frondosa ramagem.

Pena é não ser possível ouvir as suas memórias pois, certamente, muito nos extasiariam.

Um dia, ao chegar à venda da aldeia para o seu bagaço matinal, o Manuel Leitão, apesar de, como sempre, distraído, não deixou de reparar numas caras novas e desconhecidas que, à volta da única mesa existente, discutiam sobre uns papéis que vagamente lhe pareceram mapas.

Os poucos clientes habituais como ele, àquela hora matinal, não deixavam também de prestar atenção à conversa dos forasteiros.

Perceberam, tenuemente, que falavam de uma estrada que seria traçada sobre o velho caminho existente e que durante séculos tinha sido o traço de união entre aquela aldeia serrana e o resto do mundo, a que alguns chamavam civilização.

Quando? O quê? Como?

Ninguém sabia responder; apenas célere correu a nova que, finalmente, iria ser aberta uma estrada para melhorar o acesso à terrinha.

Velha aspiração da população, objecto de várias promessas eleitorais nunca cumpridas, iria finalmente executar-se?

Durante dias o velho Manuel Leitão andou apreensivo, ainda mais fechado consigo mesmo do que habitualmente.

Velho pastor, habituado a longas permanências solitárias, sem família, era mais chegado a compreender os animais do que os seus semelhantes. Além das crianças (que tendo-lhe medo gostavam dele) e dos bichos, só falava com alguém quando necessário.

Um velho maluco! Diziam as comadres da aldeia, simplificando a questão.

Rijo e rude, tinha no entanto uma notável sensibilidade.

Tinha o Manuel Leitão, no palmo da terra que rodeava a sua habitação, uma pequena horta com meia dúzia de tronchudas e uma macieira quadro fino, uma delícia, como se dizia na terra. E era ver, nos anos em que a natureza prodigalizava uma farta produção que vergava os frágeis ramos com o peso dos frutos, como ele arranjava paus em forma de forquilha para recuperar os ramos tendo previamente o cuidado de os embrulhar com trapos velhos para que o atrito não causasse danos aos ramos escorados. Conta-se ainda dele que, tendo sido rogado uma vez para as vindimas, veio, terminada a safra, mais triste do que o pano da paixão e, depois de muito questionado, saiu-se a dizer que lhe dava pena ver as vides vazias de frutos, tristes como se lhes tivessem roubado os filhos.

Lembranças dos seus que a vida lhe levara?

Ninguém nunca mais ouviu um cometário seu a este respeito, mas também nunca mais foi às vindimas.

O verão, que fora extraordinariamente quente, estava passado e o outono, já adiantado e frio, mas belo.

Um dia chegaram as notícias da vila; finalmente iriam ter estrada.

Não uma estrada nova mas o atual caminho alargado e asfaltado. As verbas não davam para mais.

Mas então o que vai ser feito do pinheiro do caminho? Exclamou o Manuel Leitão ao ouvir a notícia.

Grande dificuldade – disse-lhe um outro ao lado – mete-se-lhe a moto serra e está feito.

O Manuel Leitão não quis mais conversa e regressou, cabisbaixo, à sua modesta casa. Mas não foi a direito; subiu o caminho e meteu-se em direção à portela onde se desenhava já contra a luz do pôr-do-sol a silhueta magnífica do não menos magnífico pinheiro, carregado de pinhas.

Ai as pinhas!…

Quantas vezes em miúdo o Manuel Leitão aí andara com outros colegas, já desaparecidos, deitando-as abaixo e, à moda dos homens primitivos, utilizando um calhau como utensilio, partiam e comiam os saborosos pinhões; mais tarde, já adulto, ainda fez o mesmo com os dois filhos que a Josefa lhe dera. E era ver com que alegria pai e filhos brincavam e comiam pinhões como três crianças.

Sol de pouca dura!

Veio um inverno mais rude, vieram mais dificuldades ainda para a vida do serrano, veio também aquela velhaca gripe asiática que lhe levou a família.

A partir de então, a solidão do pastor acentuou-se progressivamente fechando-lhe ainda mais o caracter, já de si pouco extrovertido.

Chegado ao alto, o Manuel leitão abraçou-se ao pinheiro e falando alto, com a emoção a embargar-lhe a voz, disse simplesmente:

– Velho amigo! Foste abrigo e alivio para muitos apesar de solitário, como eu. Olhamos à volta e não vemos os teus filhos, talvez porque sempre comemos os teus pinhões. Estás mais belo do que nunca e aí para durar. No entanto, tu que resististe à moda das árvores de Natal, às intempéries, ao frio do inverno e ao calor infernal do verão, estás agora condenado pelo progresso.

A terra desenvolve-se, necessita-se de uma estrada, alarga-se o caminho e tu vais abaixo!

O velho olhou para o alto e sentiu que a ramagem se agitava, não podendo ele explicar se a árvore estremecera ou se fora a acção da brisa.

– Prometo-te que semearei, um a um, todos os pinhões que neste momento estão nas pinhas que ainda conservas. Morrerás aqui, mas nascerás multiplicado noutros locais.

E, dizendo isto, desceu novamente à aldeia voltando pouco depois com um saco e uma grande vara, começando, de seguida, a fustigar febrilmente os ramos fazendo cair as pinhas que guardava no seu saco. Já a noite ia alta quando de novo retornou a casa, como de costume acabrunhado, descendo a ladeira iluminada agora por uma magnífica lua de novembro.

Via-se-lhe pelo cintilar dos olhos que alguma coisa bailava na sua mente. Ao chegar a casa, pousando o saco das pinhas, bateu-lhe em cima com a mão encarquilhada e, sorrindo pela primeira vez desde há muitos anos, disse:

Vós sóis o futuro!

As obras começaram céleres.

Havia um vaivém de máquinas e de gente e, pouco a pouco, aproximavam-se do alto. Uma tarde, um que parecia ser o capataz, disse: Amanhã é preciso trazer a moto – serra pois é o momento do pinheiro ir abaixo!

Ao ouvir isto, o Leitão estremeceu.

Todo o dia por ali deambulou, descrevendo longos círculos em torno da zona dos trabalhos. O que se passaria naquela cabeça ninguém poderá nunca imaginar.

Quando começou a anoitecer e o pessoal se retirou, o Manuel Leitão foi-se aproximando e, quando teve a certeza de que todos já se encontravam longe, foi buscar o serrote e o machado que tinha escondido mais longe, entre um urgueiral e, abraçando a árvore, exclamou:

Não! Não podes ser abatido por uns forasteiros para quem nada representas. Serei eu que, por amor a ti, me encarregarei desse trabalho.

E, febrilmente, começou a atacar a árvore. Primeiro viu o vento, para calcular para que lado iria; depois atou-lhe já próximo da corucha uma corda que retesou, presa a um penedo, para obrigar o gigante a cair pela encosta.

Primeiro o rumor surdo do machado a abrir o sulco por onde deslizaria a serra, depois o barulho da serra a cortar a madeira e aquele cheiro a resina que se ia desprendendo.

Trabalho árduo.

Apesar do frio, o Manuel Leitão suava e de vez em quando parava par tomar fôlego e limpar o suor da testa.

O serrote largo foi avançando até ao momento em que um golpe de vento arrancou um gemido à árvore já moribunda. O Manuel Leitão cerrando os dentes e redobrando o esforço, disse: Só mais um momento, amigo.

Pouco tempo depois, uma brisa, e outra, e outra, começaram arrancar gemidos cada vez mais fortes, ao colosso.

Abandonando, então, as ferramentas, o velho foi junto do penedo onde atara a corda e agarrando-a, esperou que uma rajada de vento mais forte o ajudasse a consumar o trabalho.

A lua brilhava na escuridão da noite, iluminando o rosto tisnado do velho pastor que, tranquila e impavidamente, esperava o momento mais propício para puxar a corda do mesmo modo como o carrasco espera o sinal do juiz para fazer baixar o enforcado.

E a rajada sublime veio; o velho puxou com quanta força tinha e a árvore dando um gemido:

Nheeeeeeee—nheeeeeeee—nheeeeeeee—rrrrrrpummmmm

Inclinou-se, inclinou- se mais e ruiu fragorosamente levantando uma nuvem de pó cujas partículas, à luz prateada da lua, lembravam a sarabanda de neve a rodopiar, como outrora muitas vezes, à volta do pinheiro.

O Manuel Leitão, com a cabeça entre as mãos, olhava fixamente o gigante caído e, na face triste, ao mesmo tempo que deslizavam lágrimas, desenhou-se um sorriso.

Nunca ninguém soube ao certo o que se passou, quem foi capaz de tal proeza. Mas o certo é que o Manuel Leitão desapareceu, para nunca mais ser visto.

Anos mais tarde, verificou-se uma eclosão de pinheiros mansos por toda a serra e, um dia, um caçador que se tinha abrigado sob uns penedos ao jeito de gruta, encontrou um bocado de tronco de pinheiro já apodrecido, meio enterrado, onde se podia ainda ler: morreste, mas nascerás nesta mesma serra multiplicado por cem!

…E as arvores cresceram, um lindo pinheiral se formou e lindas crianças voltaram a comer pinhões tirados das pinhas dos filhos do Pinheiro do Caminho.

* Conto extraido do livro “Histórias numa Vida”.

(A.23 Edições, 2018)


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