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Dor, uma imensa dor

Escrito por em Junho 21, 2018

Sinto dor, imensa dor.
Falo do que se passa nos EUA, onde crianças filhas de imigrantes ilegais estão a ser separadas dos seus pais e a serem colocadas em verdadeiros campos de concentração. Tudo disto na “terra das oportunidades”, construída por imigrantes, habitada pelos filhos deles; a terra que um dia foi o baluarte da Democracia e da Liberdade.
Sinto dor, imensa dor.
Não apenas por estas crianças mas também pelas que tentam a travessia no Mediterrâneo (e muitas morrem a tentá-lo). Vejo muitos a apontar o dedo para longe, para o outro lado do oceano. É fácil.
Porém, temos um mar à porta de casa onde a Europa também vive uma das suas maiores vergonhas. Mas há quem assobie para o lado, há quem não queira ver o que está aqui tão perto, como se sofresse de uma “hipermetropia especial para refugiados”, que vê bem ao longe mas mal ao perto, associada a uma amnésia que já esqueceu, por exemplo, um certo menino sírio, chamado Aylan, encontrado morto numa praia europeia.
Temos uma civilização ocidental a acobardar-se perante os problemas,a optar pela solução aparentemente mais fácil mas que a médio/longo descobrirá que afinal essas soluções de exclusão, discriminação, xenofobia não são, afinal, solução para coisa nenhuma. Essas soluções, que um emergente neofascismo defende mas que urge combater, resultam apenas numa sociedade injusta, individualista, cruel para com a diferença, despojada de qualquer sentimento solidário, fraturada, em guerra consigo própria, sem futuro viável, onde o desenvolvimento social não terá qualquer lugar. Sociedades assentes no ódio. Na morte.
A Europa ainda é, atualmente, um bastião da Democracia, dos Direitos Humanos, do respeito pela dignidade da cada pessoa. Tem sido, também, um continente de paz nas últimas décadas e nós, europeus, já estamos tão habituados à paz que quase não nos é concebível uma guerra entre povos europeus. Por estas razões, a Europa desenvolveu-se, tem sociedades menos injustas, é um continente onde é possível ter uma vida digna e com qualidade. É por isso que muitos o procuram. Como se pode criticar alguém que apenas procura isto – viver em paz e com dignidade?
Contudo, muitos europeus gostam de arvorar uma espécie de “superioridade moral” sobre o resto do mundo que tende, muitas vezes, a ser arrogante e injustificada. Olhemos para a História da Humanidade: qual foi o continente mais violento ao longo dos séculos, com mais guerra e mais destruição? Qual foi o continente que invadiu, ocupou e colonizou os outros continentes, que escravizou em massa outros povos? Qual foi o continente que foi responsável pelo eclodir das duas guerras mundiais? A resposta a estas questões só tem uma palavra – Europa.
Mas foi também a Europa a mostrar a Democracia e a Liberdade ao mundo. As lições da História foram violentas, custaram milhões de vidas humanas e uma imensa destruição mas há quem queira esquecer – ou pior, ignore – essas mesmas lições. Por exemplo, choca-me ver portugueses, um povo tão emigrante que a segunda cidade com mais portugueses é em França, defenderem restrições absolutas à imigração; choca-me ver portugueses emigrantes defenderem para os países que os acolheram políticas xenófobas e de impedimento de entrada de outros imigrantes, achando imbecilmente que são imigrantes melhores ; choca-me que alguém negue a outros o direito a procurar uma vida em paz e digna, a vida que todo o ser humano merece. Chocam-me as atitudes egoístas, cobardes e desumanas dos governos italiano, maltês e húngaro.
Há uma lição ainda por aprender por europeus e americanos – que quanto mais fomentarem a desigualdade entre os povos, quanto menos se preocuparem com o desenvolvimento político, social, económico e cultural dos seus vizinhos, mais problemas terão com imigrantes ilegais e refugiados.
Sinto dor, imensa dor.
Vivemos tempos de desumanização da Humanidade, tempos de cobardia, tempos em que se nega a uma criança, com a maior naturalidade e sem qualquer peso na consciência, a coisa mais simples do mundo – o colo da mãe e do pai.
Acontece nos EUA mas a Europa também não está bem na fotografia.
Sim, apontemos o dedo a Trump e à sua perigosíssima trupe fascista mas não esqueçamos que quanto apontamos um dedo a outros, temos três a apontar para nós…

Fernando Sousa Silva
Sociólogo